segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Viagem dos Amigos ao Brasil

Basílica do Senhor do Bom Jesus
Entre 24 de Novembro e 8 de Dezembro de 2007 foi realizada mais uma viagem ao estrangeiro pelo Grupo de Amigos do Museu Nacional do Azulejo.
O destino foi desta vez o país-irmão Brasil que revelou possuir mais património português e de maior qualidade, no âmbito da azulejaria e não só, do que os não entendidos poderiam esperar.
João Castel Branco, Presidente do Grupo dos Amigos, estabeleceu também para esta visita ao Brasil, antecipadamente, contactos interessantes com responsáveis de várias instituições visitadas que enriqueceram, pelo seu convívio e pela sua informação, a vivência brasileira dos participantes nesta viagem. Além disso, houve nos diversos estados que o grupo visitou, guias locais à altura, que acompanharam o grupo com competência e simpatia, por vezes com algum excesso de zelo, embora com a boa intenção de não deixar que o grupo se desviasse para as, sem dúvida, muito atractivas compras............
Pelourinho, Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Dá-se aqui um relato que não pretende ser exaustivo, mas sim dar aos Amigos que não puderam participar, uma ideia desta autêntica aventura brasileira!

A viagem teve início em Salvador da Bahia, primeira capital da então colónia portuguesa. Se por um lado Bahia foi o seu maior centro importador de escravos e hoje nenhum estado brasileiro preserva com tanto orgulho o legado da ascendência africana, presente na religiosidade, na música, nas festas populares a ela ligadas e na culinária, existem por outro lado nomeadamente na cidade alta, com o seu justamente famoso Pelourinho, inúmeras igrejas e mais de oitocentas casas dos séculos XVII e XVIII, das quais grande parte restaurada, memória viva da presença portuguesa. Sem querer nomear todas as visitas efectuadas a igrejas e museus, merecem especial relevo a Igreja e Convento de São Francisco, um extraordinário monumento barroco, a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, pelo seu património único em painéis de azulejaria portuguesa de temática rara, bem como o Museu de Arte Sacra que reúne um dos principais acervos de arte religiosa do Brasil.

Painel de azulejos da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco

Memorável foi, sem dúvida, também um jantar num restaurante no Pelourinho que apresentava um espectáculo de capoeira com muita qualidade em que os intervenientes se mostraram ao mesmo tempo exímios atletas, bailarinos, acrobatas, comediantes e músicos. Os mais cépticos do grupo em relação a espectáculos ditos "turísticos" (com os quais já havia uma experiência negativa em anterior viagem) tiveram que concordar - após uma primeira hora de música ensurdecedora -que lhes foi dado ver um dos aspectos fascinantes da cultura popular brasileira. Falta mencionar a fabulosa cozinha baiana de que se pôde desfrutar em várias alturas e, para alguns dos participantes, a tornada indispensável "água de coco", muito refrescante nos dias de considerável calor. O grupo deixou a Bahia, que se revelou menos insegura nesta viagem do que por vezes é dito, satisfeito e com vontade de voltar.
Passeio nos Lençóis

A próxima paragem foi São Luís do Maranhão, "a Lisboa das Américas", onde se chegou ao fim do dia após uma viagem aérea de algumas horas com paragens em Recife e Fortaleza (e em cada trajecto sanduíches iguaizinhas e intragáveis oferecidas pela TAM, que não fizeram certamente as honras à boa comida brasileira!).
Sem minimizar outras surpresas que esta viagem proporcionou, é justo dizer que o Maranhão ultrapassou em património construído, natureza e, "last but not least", a simpatia dos seus habitantes, as mais audazes expectativas.


São Luís, Fachada do Restaurante Antigamente

Em 1997 a UNESCO declarou o conjunto arquitectónico do centro histórico da capital maranhense Património da Humanidade, após o governo brasileiro na década de 70 ter dado início ao restauro do património de marcadas características portuguesas, nomeadamente pelos azulejos que revestem as casas por fora. O ambiente na cidade é despreocupado, também pela simplicidade e descontracção dos seus habitantes no contacto com pessoas de fora. O grupo teve a sorte de poder assistir a um espectáculo, realizado nos jardins à frente do hotel onde estava hospedado, de Bumba-Meu-Boi, tradição ligada às festas juninas e de forte influência africana, em que a música e os trajes rivalizam em beleza.
Se a ida aos Lençóis do Maranhão propriamente ditos exigiu considerável esforço físico aos participantes, que nem por isso perderam a sua coragem e boa disposição, estes foram largamente recompensados pela paisagem quase desértica duma beleza serena e pelo belo banho num dos lagos, finalmente encontrado. Segundo se percebeu depois, esta dificuldade advinha do facto da época do ano não ser a mais apropriada, estando a maioria dos lagos secos. Também o passeio a Alcântara, cidade a 22 quilómetros de São Luís, onde se chegou em catamarã à vela, experiência espectacular, ofereceu uma visão única: a duma cidade, cujo nascimento remonta ao início do século XVIII, e que tendo sido a mais importante da região, entrou em declínio, em finais do séc. XIX economicamente ultrapassada por São Luís. Hoje, praticamente abandonada, alternam-se ruínas e casas que ainda conseguem documentar a sua beleza, num cenário quase irreal. Da sua importância também testemunha a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, datada de 1665 e cuidadosamente restaurada em 2000, a qual tem um excepcional e único interior em estilo rococó, totalmente inesperado naquele local. Ninguém do grupo se esquecerá facilmente dos meninos com que se esbarrava em toda esta cidade, vendendo os lindos e saborosos "doces de espécie", típicos do local, nem do simpático guia (um pouco obcecado por supostos vestígios de Maçonaria em vários edifícios) em cuja casa com linda vista e melhor cozinha se almoçou.

Via Brasília, cidade cuja interessante planta foi possível ver bem durante a aterragem, chegou-se novamente por avião à capital de Minas Gerais, Belo Horizonte. Do aeroporto saiu-se directamente para Ouro Preto, destino que segundo alguns guias justifica só por si uma viagem ao Brasil. Isto certamente se aplica aos descendentes lusos que aqui encontram uma das mais belas cidades do barroco português,cujo centro impecavelmente conservado e restaurado faz sonhar com as cidades do norte de Portugal séculos atrás. A visita ao Museu de Mineralogia deu a conhecer a extraordinária riqueza em pedras, hoje em dia todas consideradas preciosas, a que este estado deve o seu nome. As surpresas não acabaram porém em Ouro Preto: também as cidades de Mariana, Congonhas, São João D'El Rey e Tiradentes valem uma visita, embora por outras razões, pois nenhuma delas tem um conjunto arquitectónico tão coeso como Ouro Preto. Congonhas alberga no meio de construções pouco cuidadas e pouco interessantes o justa e mundialmente famoso conjunto de esculturas do Aleijadinho, tanto no átrio da bela basílica de Bom Jesus de Matosinhos, como nas pequenas capelas com as imagens dos passos de Cristo que ladeiam o caminho que vai até lá. Estava um dia com um céu espectacular, nublado e luminoso ao mesmo tempo, que fazia destacar as imagens dos profetas numa paisagem impressionante.
Mariana e São João D'El Rey dão-nos a ver mais bonitas igrejas barrocas, cada uma com as suas características próprias, enquanto Tiradentes, onde passámos a noite após uma bela chuvada tropical ao fim da tarde, se revelou duvidosa na sua concepção. Trata-se duma pequena cidade que nos anos 70, abandonada há muitos anos, foi descoberta pela TV Globo, que a fez restaurar, não sem mérito. Tornou-se porém depois totalmente turística, cheia de lojas com artesanato urbano importado das grandes cidades e sem uma população residente própria, o que lhe dá um carácter fictício. Foi aí que o grupo teve uma interessante visita guiada pela especialista brasileira em arquitectura barroca, Dra Ana Maria Parsons à bela Igreja Matriz. À noite ela teve a gentileza de proporcionar aos interessados, numa pousada que possui - e que se recomenda ! - uma introdução, ilustrada por CD's, à música barroca brasileira, outra sua especialidade e por cuja divulgação se tem empenhado há longos anos. Foi a inesperada descoberta deste mundo musical.

Alcântara

Ouro Preto

Faltava a "descida" de 400 km pelo Caminho Real em autocarro até Pretrópolis, e depois até ao Rio de Janeiro, o destino final. Um trajecto duma beleza natural extraordinária, cheio dos mais vivos verdes de uma vegetação única na sua variedade. Assim foi grande a desilusão quando se chegou à cidade imperial, onde pouco resta desta exuberante beleza, mas cuja visita valeu pelo Palácio Imperial. Não tanto por possuir - em termos europeus - um conteúdo extraordinário, mas sim pela ambiência autêntica e pelo sentimento de admiração pela família real e depois imperial, que aí é notório. Desta forma não é de estranhar que a comemoração da chegada da família real portuguesa ao Brasil, há 200 anos no próximo mês de Março, seja vivido com verdadeira emoção e clara gratidão pelo que este acontecimento significou para a unidade do Brasil, sentimento que foi claramente transmitido, também noutros locais, aos visitantes portugueses.
Por fim a chegada ao Rio, onde o hotel sobre a praia em plena Copacabana fez esquecer o choque causado a quem visita a antiga capital brasileira pela primeira vez: um dos, certamente mais belos locais do mundo para uma cidade onde, no entanto, nas últimas décadas foram feitas barbaridades em termos urbanísticos e de destruição do meio natural, para não referir aspectos sociais. Ao tomar conhecimento mais de perto da cidade, começou-se, porém,a apreciar o seu indiscutível charme. As visitas ao Corcovado e ao Pão de Açúcar, o passeio pelo centro e pelas praias circundantes, tudo isso fez o grupo saborear o Rio. Visitou-se o impressionante Real Gabinete de Leitura (impressionante também pela falta de climatização e consequente humidade que parece ao visitante fatal para o seu conteúdo a mais longo prazo...), o Convento de São Bento, em plena restauração para as comemorações acima referidas. Almoçou-se na Confeitaria Colombo, um belo restaurante no velho centro que ainda respira a atmosfera de princípios do século vinte quando foi construído, com a sua bonita mezzanine em ferro forjado e vidros coloridos. Onde o tempo parece ter parado, até pelo solitário pianista que toca sem parar e que ninguém parece ouvir...
O programa no Rio deixou amplo tempo para visitas individuais que cada um pode fazer sem sentimento de insegurança de maior. Pessoalmente pude andar uns 10 km de bicicleta pelo calçadão ao longo das praias de Copacabana, Ipanema e Leblon, gozando calmamente a paisagem natural e humana, uma experiência inesquecível!

Congonhas

O grupo deixou o Rio de volta a Portugal após duas semanas de viagem, com todas as razões para estar grato à associação que lhe propôs este enriquecimento cultural e grato pelas experiências vividas que contribuíram para um outro, positivo, olhar sobre o Brasil, país com imensas riquezas - humanas, patrimoniais e naturais - e que se sente encontrar-se em franco desenvolvimento. Vantagens naturalmente do olhar de turista despreocupado, mas nem por isso menos atento.
Janeiro 2008, TvR

3 comentários:

Anónimo disse...

A viagem deve ter sido muito interessante!

Anónimo disse...

Deve ter sido, quem me der ter ido!

Anónimo disse...

Gostei muito